Ocorrências com pipas impactam a vida de milhares de pessoas na capital paulista
Foto: Riselda Morais
Uso da linha com cerol ou linha chilena configura o crime previsto no art. 132, do Código Penal, cuja pena é de três meses a um ano de prisão
Riselda Morais – São Paulo – Não é só no período de férias escolares e nem são crianças brincando. São dezenas de homens adultos e muitos de cabelos brancos, que tomam as ruas do bairro de Vila Guilhermina nos finais de semana, principalmente nas manhãs de domingo, empinando pipas com linhas chilenas e com cerol.
Com portas-malas dos carros abertos e inúmeros rolos de linha chilena, eles submetem os moradores ao perigo das linhas cortantes como se fosse brincadeira de criança.
“Nossa, quando eu estava vindo, passei na rua ao lado da UBS e tinha tantos homens empinando pipa com linha chilena que fiquei com medo de passar. Eles usam rolos enormes de linha chilena e gritam o tempo todo e ninguém faz nada?”, questionou uma moradora que sentiu medo ao percorrer dois quarteirões entre a casa e o salão de beleza que frequenta.
A preocupação não é só de uma, mas de muitos moradores do bairro, que chegam a flagrar pipeiros subindo nos telhados de suas residências para resgatar pipas.
Os danos que um pipeiro pode causar a população ao soltar pipa com linha chilena ou cerol na via pública, vai além do incômodo causado pela gritaria nos domingos de manhã; de ter as telhas quebradas por aqueles que se atrevem escalar a casa de outrem para resgatar uma pipa; o pior é o risco de ter o pescoço ou outra parte do corpo cortado pela linha ao transitar na rua em que mora e perder a vida.
As linhas de pipas, cortantes, ao se enroscar nos fios da rede elétrica, podem provocar curtos-circuitos, danificar a rede de transmissão e equipamentos dos consumidores, resultar em acidentes fatais ou graves e deixar bairros inteiros sem o fornecimento de energia, causando prejuízos financeiros e deixando a população vulnerável à violência por estar no escuro e sem segurança.
De acordo com a ENEL, no primeiro semestre deste ano, foram registradas 1.972 ocorrências de interferências na rede de energia causadas por pipas que deixaram 798.656 clientes sem energia. Aumento de 15% nas ocorrências e de 35% em número de pessoas impactadas, em comparação ao mesmo período de 2024, que registrou 1.705 ocorrências que impactaram 588.872 clientes.
A capital paulista lidera em número de ocorrências envolvendo pipas, segundo a ENEL foram 1.413 ocorrências em 2025 que impactaram mais de 586.842 clientes. Seguida por Osasco com 114 ocorrências; Carapicuíba 95; Mauá 46; Santo André 36; Itapevi 32; Diadema e Barueri 31 ocorrências cada; Cotia 29; São Bernardo 28 e Taboão da Serra 25.
Segundo levantamento realizado pela ISA Energia Brasil, o número de desligamentos em linhas de transmissão causados por pipas também aumentaram.
Foram quinze desligamentos neste ano; dezoito desligamentos durante todo o ano passado e cinco em 2023. Registrou também, 1.500 interferências por pipas na rede de transmissão que poderiam evoluir para desligamentos. Ainda segundo a ISA, os municípios com mais desligamentos são São Paulo, Guarulhos, Francisco Morato e Mogi das Cruzes, regiões densamente povoadas e com histórico de práticas recorrentes com pipas próximas às faixas de transmissão.
O alerta vem, com a ocorrência de 2024 em Mogi das Cruzes. Em 2024, uma intervenção emergencial foi necessária na linha de transmissão de 440 kV Mogi Mirim 3 – Santo Ângelo, em Mogi das Cruzes (SP), após um cabo para-raios ser danificado por linha chilena. “Preservar a integridade da rede de transmissão é preservar a segurança de todos. Linhas cortantes colocam em risco a vida de quem solta pipas e de toda a população que depende dos serviços essenciais alimentados por energia elétrica”, afirma Elder Kobayashi, gerente de Operações da ISA Energia Brasil.
Enfatizando a relação direta entre causa e consequência, evidenciando como atitudes aparentemente inofensivas podem provocar interrupções no fornecimento de energia, comprometer serviços essenciais e gerar prejuízos, inclusive para quem comete a infração a ISA lançou a campanha “Pequenas Atitudes. Grandes Consequências”.
O que diz a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.
Em nota,a Polícia Civil informou que “a venda de cerol ou qualquer outro material cortante aplicado em linhas é crime previsto na lei estadual 17.201/2019. Já seu uso configura o crime previsto no art. 132, do Código Penal, cuja pena é de três meses a um ano de prisão, redundando em termo circunstanciado”.
A Polícia Militar informou que “realiza a fiscalização do uso de cerol durante o policiamento preventivo e, ao flagrar o uso deste artefato ou receber denúncias de venda do item, a equipe realiza a apreensão e encaminha os envolvidos ao distrito policial para registro de boletim de ocorrência”.
A SSP informou ainda que na Capital, a Divisão do Consumidor do DPPC também realiza ações pontuais para coibir a venda ilegal de “Linha Chilena” bem como as “linhas com Cerol. E recomenda que “a população deve evitar qualquer contato com linhas de pipas, principalmente aquelas cortantes, como o cerol ou a linha chilena, devido ao risco de acidentes graves”. E alerta que “esse tipo de material pode causar cortes profundos, choques elétricos e até danos a veículos”.
A Secretaria de Segurança Pública reforça que: “Os munícipes devem manter distância de pipas que estejam próximas a residências, telhados ou redes elétricas e nunca tentar retirá-las por conta própria, pois a ação pode resultar em ferimentos ou acidentes graves. Em caso de risco iminente, recomenda-se acionar os órgãos competentes para a remoção segura da linha, garantindo a segurança de todos”, diz em nota a SSP.
Dicas de segurança enviadas pelas concessionárias de energia:
• Soltar pipas perto da rede elétrica é extremamente perigoso, sob risco da linha ou da pipa enroscar nos fios, ocasionando descarga elétrica. O mais indicado é empinar pipas em espaços abertos e afastados de fiações, como parques e campos de futebol;
• Caso a pipa se enrosque na rede, postes ou antenas, os praticantes não devem arremessar objetos nos fios nem tentar resgatá-los. Somente técnicos da distribuidora treinados para este trabalho, que exige o uso de equipamentos de segurança, estão aptos a manusear a rede;
• Materiais metálicos, como o alumínio, não devem ser usados na fabricação da pipa, pois conduzem eletricidade, aumentando a chance de choque elétrico, com risco de morte;
• Evite a utilização de “rabiolas”, pois elas agarram nos fios elétricos, desligando o sistema e provocando choques, muitas vezes fatais;
• Não é indicado soltar pipas na chuva. Ela funciona como para-raios, conduzindo energia e podendo provocar acidentes fatais;
• O uso de cerol (pó de vidro com cola) oferece mais um risco: ele corta os fios de alumínio ou de cobre, o que pode levar a choques por rompimentos de cabos;
• O uso da chamada linha chilena, que possui poder de corte quatro vezes maior que o cerol tradicionalmente usado nas pipas, tem agravado a situação. O risco de acidentes fatais é alto para pedestres e motociclistas e os danos à rede elétrica também são maiores.
