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A tragédia anunciada e a dor imensurável

Por: Riselda Morais

As 2 hs e 30 minutos da madrugada deste domingo (28/01) teve início um luto coletivo que recebeu o nome de “Tragédia anunciada”, a “Tragédia em Santa Maria“. O evento que deveria ser uma noite de diversão e que marcaria a vida de centenas de universitários, na faixa etária de 16 a 24 anos, com muita alegria e boas lembranças para toda a vida transformou-se em pesadelo para uns e no fim da vida para muitos.
Uma sucessão de erros provocados por várias pessoas resultou em um incêndio que ceifou vidas ainda no começo, dentro da boate Kiss, no centro da cidade dos universitários, Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Com o objetivo de arrecadar fundos para a formatura, como tantos estudantes costumam fazer, os universitários escolheram a boate Kiss como local para o show com a banda Gurizada Fandangueira, que por sua vez tinha como costume apresentar show pirotécnico, neste momento, faíscas do material atingiu a espuma utilizada como isolante acústico no teto da boate, que pegou fogo rapidamente deixando, até este momento, 235 mortos e 160 feridos, sendo 75 deles em estado grave.
O Brasil amanheceu de luto e a cidade de Santa Maria entre o choque e as lágrimas, também morta de tanta tristeza.
O que ceifou vidas tão prematuramente não foi uma fatalidade, mas uma sucessão de erros e imprudências que poderiam ter sido evitadas.
O primeiro erro que já anunciava uma tragédia aconteceu na construção do empreendimento, quando ao pensar apenas em garantir o lucro e controlar os frequentadores, os proprietários desta boate seguiram o exemplo da maioria e fizeram apenas uma porta para entrada e saída e não se preocuparam com as portas de emergência, podemos presumir que calcularam os riscos e optaram pelos lucros.
O segundo erro também por conta dos proprietários foi fazer o isolamento acústico, com material inflamável e não o proteger com outro tipo de material que oferecesse segurança, além de não sinalizar o local.
O erro seguinte ficou por conta do órgão que lhe concedeu o alvará de funcionamento, no mínimo fez vistas grossas.
O alvará vence em agosto e a boate continua funcionando, deveria ter sido fechada, faltou fiscalização por mais de seis meses. Todos esses erros, somados a imprudência da banda que acendeu o material pirotécnico em ambiente fechado, a imprudência de superlotar a casa que estava funcionando com o dobro da capacidade e, ao despreparo dos seguranças que estavam instruidos apenas para proteger os lucros da casa e não para oferecer segurança aos frequentadores, fechando as portas ao invés de tirar o máximo de pessoas da fumaça o mais rápido possível resultou em uma “Tragédia anunciada“.
A distância resta-nos exigir dos órgãos competentes, não apenas de Santa Maria, mas de São Paulo e de todo o Brasil, que vistoriem as boates, casas de shows, clubes, buffet’s, shoppings e todos os empreendimentos onde frequentam grandes números de pessoas, vejam alvarás, portas corta-fogo, tipos de materiais usados na acústica e as proteções para as mesmas, saídas de emergência, sinalizações e os que estiverem fora da lei e das exigências das normas de segurança que sejam fechados e seus proprietários responsabilizados e obrigados a regularizar, a executar as obras necessárias, a mensurar os riscos para funcionários e frequentadores antes de serem autorizados a abrir para funcionamento.
Muitas vidas ainda podem ser poupadas e protegidas das muitas “Tragédias anunciadas“ que virão se não tomarmos esta grande perda como lição. Mas para as famílias de Santa Maria, onde a ordem natural da vida foi quebrada e os pais tiveram que enterrar seus filhos que morreram de forma tão trágica e tão precocemente, a dor é imensurável e a perda insuperável. As formaturas que não acontecerão, os profissionais que não exercerão seus cargos, os filhos que não voltarão para casa, os cadernos que permanecerão sem uso, assim como as roupas que ainda guardam o cheiro único que só um filho, uma filha tem e não mais serão usadas, a cama vazia... e em todas as refeições, um, dois, três, quatro lugares na mesa estarão vazios, além do vazio da ausência das filhas e dos filhos amados.
Faltam 235 boa noite, 235 bom dia, 235 abraços apertados, além da companhia e dos muitos “Eu te amo“ que não mais serão ouvidos.

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© Riselda Morais