Saúde

Doação de órgãos: um ato de amor que salva vidas

Para ser doador não é necessário deixar documento por escrito, basta autorização dos familiares, após o diagnóstico de morte encefálica         

Foto: Alexandre de Carvalho

          No último dia 27 de setembro foi celebrado o Dia Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos. Na ocasião, o Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP promoveu uma campanha para incentivar a doação de órgãos, reforçando a importância desse ato fundamental para salvar vidas de quem necessita de transplante.
          A campanha foi coordenada pelas unidades de Transplantes de Fígado e Órgãos do Aparelho Digestivo e de Gastroenterologia e Hepatologia Clínica, OPO – Organização de Procura de Órgãos do HC-FMUSP, com apoio da ONG Viva Transplante.
          Em 2016, o Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP realizou 518 transplantes, sendo 195 de rim, 117 de medula óssea, 101 de fígado, 94 de córnea e 11 de pâncreas. No entanto, o número de pacientes na lista de espera é grande. Em São Paulo, por exemplo, quase metade dos pacientes que precisam de um transplante de fígado morre durante a espera pelo órgão.
          Segundo dados do Sistema Estadual de Transplantes de São Paulo, atualmente existem muitas pessoas na fila à espera de transplantes de coração (194), córnea (3.487), fígado (962), pâncreas (50), pulmão (101), rim (13.011) e pâncreas/rim (513).
          Para ser doador não é necessário deixar documento por escrito. Basta autorização dos familiares, após o diagnóstico de morte encefálica. É preciso que as pessoas superem as barreiras de diversas naturezas e manifestem aos familiares o desejo de serem doadoras. E esse desejo precisa estar bem explícito para a família. Para Estela Azeka, médica do Incor, é difícil convencer as pessoas no momento de extrema dor em que elas se encontrem em choque de aceitar a doação. A médica lembra que todo mundo pode ser um doador e quem vai determinar se o órgão é compatível é a equipe que vai fazer o transplante.
          “O ideal é criar uma cultura de doação independente da situação. Se você não está a todo o momento relembrando da necessidade, isso acaba sendo esquecido. A gente percebe uma predisposição maior sempre nos momentos durante e imediatamente após as campanhas de doação de órgãos. É importante conscientizar a população que doar é um ato de amor, e que ao doar um órgão a pessoa está ajudando outras que também estão passando por um momento difícil”, diz Azeka.
O Incor – Este ano, o programa de Transplante Cardíaco Infantil completou 25 anos, já o Incor comemorou 40 anos em janeiro de 2017. O primeiro transplante infantil aconteceu em 30 de outubro de 1992. O paciente foi um bebê recém-nascido, que recebeu um coração novo porque a alternativa era a cirurgia Norwood. Por ser de alto risco, a cirurgia foi descartada pelos pais, que optaram pelo transplante. De 1997 até 11 de julho deste ano, o Incor já realizou 213 transplantes em crianças e 456 transplantes em adultos. Desse total, apenas nove pacientes tiveram de fazer um novo transplante. A partir de 2000, o Incor também passou a fazer cirurgias de transplantes de pulmão. Já foram feitos 319 transplantes do tipo, desde então (até 11 de julho deste ano). Em 2017, o Incor já realizou nove transplantes infantis, até o momento. “A média no exterior é de 10 transplantes anuais e nós já chegamos a fazer 15 transplantes durante o ano”, afirma Azeka, que regressou de Barcelona, Espanha, para participar de um encontro internacional de médicos.
Zerbini – Os transplantes são motivo de comemoração para o Incor, pois apresentam resultados de sobrevida de 60 a 70% no período de dez anos, para mais de 100 pacientes transplantados. Azeka diz que hoje os transplantes fazem parte da rotina do Incor, mas que foi preciso superar muitos desafios para chegar a esse estágio em que é possível salvar a vida de muitas pessoas. O Incor está entre as principais centros de transplantes no mundo e essa tradição tem início na atuação de um de seus fundadores, o cardiologista Euryclides de Jesus Zerbini, o primeiro cirurgião brasileiro a realizar um transplante de coração na América Latina, apenas seis meses depois do pioneiro em cirurgias do gênero no mundo, o sul-africano Christian Barnard. Zerbini morreu de câncer, em 23 de outubro de 1993, aos 81 anos, no próprio hospital que ajudou a fundar.